Apagão

Solução da crise energética exige novo
governo, diz físico Luiz Pinguelli

Por Valéria Nader
21/05/2001

A crise energética assumiu dimensões que nem mesmo os atuais dirigentes da nação, inabaláveis em seu otimismo autista, conseguem disfarçar seu desespero mediante as repercussões que o racionamento poderá causar em sua sustentação política. Para o físico e diretor da COPPE (Coordenação de Programas de Pós-graduação em Engenharia) da UFRJ, Luiz Pinguelli, chegamos a essa situação devido a uma postura imprevidente e irresponsável do atual governo. Os dirigentes teriam olvidado tanto as advertências iniciais de que incentivavam um modelo equivocado de privatização - entregando o patrimônio existente nas mãos de investidores externos, em vez de incentivar-lhes novos investimentos -, quanto aquelas mais recentes, que alertavam para o baixo nível dos reservatórios, que foram construídos para armazenar água por 65 anos, o que não ocorreu devido à inexistência de usinas, impondo a utilização de águas do futuro no presente. Pinguelli avalia que não há hoje no Brasil planejamento algum no setor elétrico, onde o setor privado é quem tudo resolve, segundo seus próprios critérios. Face a um quadro caótico, o diretor da COPPE não vê alternativas para o setor a médio e longo prazos fora do planejamento público, o que exigiria a eliminação política dos economistas liberais e a substituição do atual governo por outro, que trate com seriedade a energia elétrica. Confira abaixo.

Correio: Como você avalia a crise energética que o país vive hoje? Por que chegamos a essa situação?

LP: Os estrangeiros compraram as empresas elétricas estatais que foram privatizadas, englobando grande parte da distribuição e também uma parte da geração. O governo acreditou que, com a privatização, atrairia o capital estrangeiro, estimularia a competição, a redução de tarifas e a qualidade. A idéia era que isso fosse estimular o que se chama de produtores independentes, uma vez que as próprias distribuidoras são autorizadas a gerar energia até um certo limite. Supunha-se que o mercado iria criando as condições para a geração crescer, só que isso não aconteceu.

Antes mesmo do problema agravar-se, nós mostramos num documento, que encaminhamos logo após a posse do governo no primeiro mandato, um estudo avaliando que o modelo de privatização em curso não daria certo (nós nem entramos na discussão sobre se privatizar ou não). O Brasil cresce muito em energia, não é como a Inglaterra, nem como o Chile. Infelizmente, nossa indústria é no momento pesada em energia. Isso tudo somado indica que esse modelo não vai fornecer a quantia certa de energia. Nossa sugestão era que houvesse a privatização na nova geração, ou seja, novas usinas seriam feitas pelo setor privado, sendo que as estatais antigas continuariam gerando uma energia barata, até para confrontar. Porém, nada disso foi feito e aconteceu o que nós achávamos que aconteceria.

Agora, mais recentemente, quando a coisa foi se agravando, nós mostramos que estavam sendo esvaziados os reservatórios das hidrelétricas, que foram feitos para acumular água por até 65 anos, e não se podia culpar a chuva por isso, absolutamente. As chuvas foram abundantes no ano de 1998. O problema começou a piorar mesmo em 2000 e 2001. E se nós tivéssemos a água devidamente armazenada, nós não teríamos problema nenhum. Por que não se armazenou a água? Porque não havia usinas em número necessário e passou-se a gastar a água do futuro no presente. Nós mostramos isso matematicamente. Nós levamos um relatório para o governo, porém eles não tomaram providência e ficaram repetindo que tudo se resolveria, no fundo acreditando que haveria chuva. Só que a chuva é variável. Não se pode apostar na sorte. O governo foi não só imprevidente, como também irresponsável.

Correio: A ANEEL e a ONS divulgam que também haviam alertado o governo. Qual sua opinião sobre a postura desses órgãos?

LP: Não acho que seja verdade o que está sendo colocado. Eu não estou dizendo que eles são os culpados, mas agora estão cada um com uma interpretação. Acho que quem alertou fomos nós da universidade. Na última hora, quando o barco faz água, todo mundo pula fora. De certo modo, quando se propôs o plano de 49 termelétricas para o setor privado executar, é claro que havia o reconhecimento de uma crise. Mas o setor privado faz o que ele quer e não tem planos de fazer 49 termelétricas. Também houve o apagão de março de 1999, e o que dele se falou foi mentira. Não caiu nada em Bauru. Era já a vulnerabilidade, porque também a transmissão está muito fraca. O culpado mesmo de tudo isso é o Pedro Malan, integrante dessa patota, desse grupo que está no poder, pois ele toma conta dos investimentos das estatais e proibiu que elas fizessem investimentos.

Correio: Na divisão entre ministério e agência reguladora, de quem é a responsabilidade pelo planejamento energético e pela política geradora?

LP: Não há planejamento nenhum, ou seja, é o mercado que regula a economia. Isso que eles chamam de planejamento indicativo, que é de responsabilidade do governo, e que foi visto antes na Eletrobras, agora é como um buffet de restaurante, quer dizer, cada um escolhe seu prato. Antigamente, o planejamento era algo que deveria ser feito, agora é aquilo que você resolve. Quem resolve? O setor privado. Desse modo, não há acordo nenhum. Há uma bagunça, onde, numa hora, a responsabilidade é de São Pedro, noutra hora é de fulano. Não tínhamos nenhuma dúvida que esse seria o desfecho na área elétrica.

Correio: Recentemente, a norte-americana AES manifestou-se dizendo que a 1a termelétrica do Brasil, de Uruguaiana, foi o pior negócio do mundo. Na mesma oportunidade, informou o cancelamento de investimentos planejados no Brasil no valor de US$ 2,2 bilhões. Face a essa atitude receosa dos investidores privados e à postura atual do governo, refratária aos investimentos públicos no setor de energia, qual é a alternativa para o aumento da capacidade de geração do Brasil?

LP: A alternativa é, na próxima eleição, trocar esse governo completamente irresponsável por um governo que crie uma situação no Brasil onde a energia elétrica seja tratada com seriedade. Isso exige a eliminação política desses economistas liberais, simbolizados por Pedro Malan, que é aquele que a toda hora aparece como símbolo da força política. É o Cavallo do Brasil. Isso eu acho que é fundamental e espero que as oposições entendam isso. A solução é mudar esse sistema. Eles tentaram privatizar a CESP Paraná em São Paulo, o que é uma atitude tresloucada. O Banco Central diz que energia elétrica é igual a chuchu! A menos que ele esteja com debilidade mental, isso é uma comparação sem nexo, que trivializa a energia elétrica como se fosse um assunto qualquer. Então, como resolver? Eliminar essa gente e criar uma competência que já houve no Brasil no passado e é possível retomar. Há muitas soluções. O gás natural está sobrando A própria empresa, até comercial, além da indústria, pode gerar energia com gás natural hoje. A sociedade tem possibilidade de conservar energia, pois há muito desperdício. Mas isso tudo exige a existência de políticas, de coordenação.

Correio: Qual poderia ser o papel de fontes renováveis de energia, tais como energia solar, eólica, biomassa, pequenas hidrelétricas etc.?

LP: O lixo urbano é um desperdício enorme. Pode-se usá-lo, diminuindo o problema dos aterros. Você pode usar o bagaço de cana no interior de São Paulo. Além da energia eólica no litoral do estado do Rio de Janeiro e em alguns pontos do Nordeste. Enfim, há soluções, mas nenhuma delas (não serei demagogo) resolveria a crise. Isso tudo tem aspectos de médio e longo prazo.

Correio: Diante do quadro que temos hoje, quais seriam, a seu ver, as melhores saídas no curto prazo?

LP: A população tem que exigir transparência. Há áreas em que acho possível que o próprio setor privado gere energia elétrica, mas a população sozinha não resolve. Ela precisa, acima de tudo, pressionar os políticos, o governo, usar seus representantes no parlamento. Os partidos políticos devem estar mais interessados na discussão desse tema, para criar uma grande pressão social e para que esse assunto não seja entregue apenas à especulação. O perigo é que, com a desgraça de uns, alguns enriqueçam mais ainda.

Correio: Tendo experimentado a crise e o racionamento, como deverá ser encaminhada a questão energética no Brasil? Você faria uma previsão pelo reforço à tendência privatista ou se poderia ter a expectativa de uma guinada rumo ao investimento e coordenação públicos?

LP: No fundo, esse governo insiste no neoliberalismo, sem reconhecer que é o setor público que dever organizar o setor elétrico, dando-lhe organicidade. A médio e longo prazo, não vejo solução fora do planejamento. Não há como ficar na solução mercadológica.

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