| Apagão |
|
Solução da crise energética exige novo Por Valéria Nader |
|
A crise energética assumiu dimensões que nem mesmo os
atuais dirigentes da nação, inabaláveis em seu otimismo autista, conseguem
disfarçar seu desespero mediante as repercussões que o racionamento poderá
causar em sua sustentação política. Para o físico e diretor da COPPE
(Coordenação de Programas de Pós-graduação em Engenharia) da UFRJ, Luiz
Pinguelli, chegamos a essa situação devido a uma postura imprevidente e
irresponsável do atual governo. Os dirigentes teriam olvidado tanto as
advertências iniciais de que incentivavam um modelo equivocado de
privatização - entregando o patrimônio existente nas mãos de investidores
externos, em vez de incentivar-lhes novos investimentos -, quanto aquelas
mais recentes, que alertavam para o baixo nível dos reservatórios, que foram
construídos para armazenar água por 65 anos, o que não ocorreu devido à
inexistência de usinas, impondo a utilização de águas do futuro no presente.
Pinguelli avalia que não há hoje no Brasil planejamento algum no setor
elétrico, onde o setor privado é quem tudo resolve, segundo seus próprios
critérios. Face a um quadro caótico, o diretor da COPPE não vê alternativas
para o setor a médio e longo prazos fora do planejamento público, o que
exigiria a eliminação política dos economistas liberais e a substituição do
atual governo por outro, que trate com seriedade a energia elétrica. Confira
abaixo. Correio: Como você avalia a crise energética que o país vive hoje?
Por que chegamos a essa situação? LP: Os estrangeiros compraram as empresas elétricas estatais que
foram privatizadas, englobando grande parte da distribuição e também uma
parte da geração. O governo acreditou que, com a privatização, atrairia o
capital estrangeiro, estimularia a competição, a redução de tarifas e a
qualidade. A idéia era que isso fosse estimular o que se chama de produtores
independentes, uma vez que as próprias distribuidoras são autorizadas a gerar
energia até um certo limite. Supunha-se que o mercado iria criando as
condições para a geração crescer, só que isso não aconteceu. Antes mesmo do problema agravar-se, nós mostramos num documento, que
encaminhamos logo após a posse do governo no primeiro mandato, um estudo
avaliando que o modelo de privatização em curso não daria certo (nós nem
entramos na discussão sobre se privatizar ou não). O Brasil cresce muito em
energia, não é como a Inglaterra, nem como o Chile. Infelizmente, nossa
indústria é no momento pesada em energia. Isso tudo somado indica que esse
modelo não vai fornecer a quantia certa de energia. Nossa sugestão era que
houvesse a privatização na nova geração, ou seja, novas usinas seriam feitas
pelo setor privado, sendo que as estatais antigas continuariam gerando uma
energia barata, até para confrontar. Porém, nada disso foi feito e aconteceu
o que nós achávamos que aconteceria. Agora, mais recentemente, quando a coisa foi se agravando, nós mostramos
que estavam sendo esvaziados os reservatórios das hidrelétricas, que foram
feitos para acumular água por até 65 anos, e não se podia culpar a chuva por
isso, absolutamente. As chuvas foram abundantes no ano de 1998. O problema
começou a piorar mesmo em 2000 e 2001. E se nós tivéssemos a água devidamente
armazenada, nós não teríamos problema nenhum. Por que não se armazenou a
água? Porque não havia usinas em número necessário e passou-se a gastar a
água do futuro no presente. Nós mostramos isso matematicamente. Nós levamos
um relatório para o governo, porém eles não tomaram providência e ficaram repetindo
que tudo se resolveria, no fundo acreditando que haveria chuva. Só que a
chuva é variável. Não se pode apostar na sorte. O governo foi não só
imprevidente, como também irresponsável. Correio: A ANEEL e a ONS divulgam que também haviam alertado o governo.
Qual sua opinião sobre a postura desses órgãos? LP: Não acho que seja verdade o que está sendo colocado. Eu não
estou dizendo que eles são os culpados, mas agora estão cada um com uma
interpretação. Acho que quem alertou fomos nós da universidade. Na última
hora, quando o barco faz água, todo mundo pula fora. De certo modo, quando se
propôs o plano de 49 termelétricas para o setor privado executar, é claro que
havia o reconhecimento de uma crise. Mas o setor privado faz o que ele quer e
não tem planos de fazer 49 termelétricas. Também houve o apagão de março de
1999, e o que dele se falou foi mentira. Não caiu nada em Bauru. Era já a
vulnerabilidade, porque também a transmissão está muito fraca. O culpado
mesmo de tudo isso é o Pedro Malan, integrante dessa patota, desse grupo que
está no poder, pois ele toma conta dos investimentos das estatais e proibiu
que elas fizessem investimentos. Correio: Na divisão entre ministério e agência reguladora, de quem é
a responsabilidade pelo planejamento energético e pela política geradora? LP: Não há planejamento nenhum, ou seja, é o mercado que regula a
economia. Isso que eles chamam de planejamento indicativo, que é de
responsabilidade do governo, e que foi visto antes na Eletrobras, agora é
como um buffet de restaurante, quer dizer, cada um escolhe seu prato.
Antigamente, o planejamento era algo que deveria ser feito, agora é aquilo
que você resolve. Quem resolve? O setor privado. Desse modo, não há acordo
nenhum. Há uma bagunça, onde, numa hora, a responsabilidade é de São Pedro,
noutra hora é de fulano. Não tínhamos nenhuma dúvida que esse seria o
desfecho na área elétrica. Correio: Recentemente, a norte-americana AES manifestou-se dizendo
que a 1a termelétrica do Brasil, de Uruguaiana, foi o pior negócio
do mundo. Na mesma oportunidade, informou o cancelamento de investimentos
planejados no Brasil no valor de US$ 2,2 bilhões. Face a essa atitude receosa
dos investidores privados e à postura atual do governo, refratária aos
investimentos públicos no setor de energia, qual é a alternativa para o
aumento da capacidade de geração do Brasil? LP: A alternativa é, na próxima eleição, trocar esse governo
completamente irresponsável por um governo que crie uma situação no Brasil
onde a energia elétrica seja tratada com seriedade. Isso exige a eliminação
política desses economistas liberais, simbolizados por Pedro Malan, que é
aquele que a toda hora aparece como símbolo da força política. É o Cavallo do
Brasil. Isso eu acho que é fundamental e espero que as oposições entendam
isso. A solução é mudar esse sistema. Eles tentaram privatizar a CESP Paraná
em São Paulo, o que é uma atitude tresloucada. O Banco Central diz que
energia elétrica é igual a chuchu! A menos que ele esteja com debilidade
mental, isso é uma comparação sem nexo, que trivializa a energia elétrica
como se fosse um assunto qualquer. Então, como resolver? Eliminar essa gente
e criar uma competência que já houve no Brasil no passado e é possível
retomar. Há muitas soluções. O gás natural está sobrando A própria empresa,
até comercial, além da indústria, pode gerar energia com gás natural hoje. A
sociedade tem possibilidade de conservar energia, pois há muito desperdício.
Mas isso tudo exige a existência de políticas, de coordenação. Correio: Qual poderia ser o papel de fontes renováveis de energia,
tais como energia solar, eólica, biomassa, pequenas hidrelétricas etc.? LP: O lixo urbano é um desperdício enorme. Pode-se usá-lo,
diminuindo o problema dos aterros. Você pode usar o bagaço de cana no
interior de São Paulo. Além da energia eólica no litoral do estado do Rio de
Janeiro e em alguns pontos do Nordeste. Enfim, há soluções, mas nenhuma delas
(não serei demagogo) resolveria a crise. Isso tudo tem aspectos de médio e
longo prazo. Correio: Diante do quadro que temos hoje, quais seriam, a seu ver,
as melhores saídas no curto prazo? LP: A população tem que exigir transparência. Há áreas em que acho
possível que o próprio setor privado gere energia elétrica, mas a população
sozinha não resolve. Ela precisa, acima de tudo, pressionar os políticos, o
governo, usar seus representantes no parlamento. Os partidos políticos devem
estar mais interessados na discussão desse tema, para criar uma grande
pressão social e para que esse assunto não seja entregue apenas à especulação.
O perigo é que, com a desgraça de uns, alguns enriqueçam mais ainda. Correio: Tendo experimentado a crise e o racionamento, como deverá
ser encaminhada a questão energética no Brasil? Você faria uma previsão pelo
reforço à tendência privatista ou se poderia ter a expectativa de uma guinada
rumo ao investimento e coordenação públicos? LP: No fundo, esse governo insiste no neoliberalismo, sem
reconhecer que é o setor público que dever organizar o setor elétrico,
dando-lhe organicidade. A médio e longo prazo, não vejo solução fora do
planejamento. Não há como ficar na solução mercadológica. |
|
Copyright © 1998-2001
Correio da Cidadania - Todos os direitos reservados |
|
|