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Racionamento, crise e privatização
JOÃO ANTÔNIO FELICIO e ANTONIO CARLOS SPIS
O Brasil está à beira do caos e às vésperas de jogar toda a população
no escuro. Enquanto isso, numa demonstração de que esse é um país
governado por quem não é sério, a afirmação do presidente do Banco
Central de que o racionamento e o aumento de tarifas devem ser temporários
porque o que existe é falta do produto -"é igual a quando falta
chuchu na feira"- causa indignação.
Ora, comparar energia elétrica a chuchu demonstra claramente por que o
Brasil vive a pior crise energética de sua história. A diferença é
que, quando o chuchu está em falta na feira, o consumidor pode optar
por abobrinha. Com falta de energia, o consumidor só tem as opções do
apagão, da tarifa mais cara, da redução da atividade econômica, do
aumento de inflação e desemprego.
Não adianta também culpar são Pedro ou governos anteriores. Os únicos
responsáveis são FHC, sua equipe econômica e sua equipe energética,
formadas pelo ministério de Minas e Energia, Aneel (Agência Nacional
de Energia Elétrica), ANP (Agência Nacional do Petróleo) e BNDES.
Desde sempre, e principalmente a partir de 94, a CUT e seus sindicatos
filiados ligados ao setor energético vêm alertando para a necessidade
de investimentos para evitar o caos que lamentavelmente se aproxima.
A solução para corrigir o déficit de energia seria manter tudo o que
já estava pronto e em funcionamento sob controle do Estado e buscar a
parceria com a iniciativa privada na expansão do setor para atender ao
aumento da demanda. Por meio de um planejamento estratégico, com políticas
bem definidas e marcos regulatórios, teria sido possível garantir
investimentos privados principalmente na geração e transmissão.
Mas, abandonando o planejamento, o governo resolveu partir para a solução
mais fácil, passando ao capital privado a responsabilidade de cuidar de
tudo. Com a privatização, concessionárias de um serviço essencial à
vida foram parar nas mãos da iniciativa privada e, fatalmente, ficaram
submetidas ao jogo do lucro e às regras de mercado.
Às vésperas da crise anunciada, a
realidade escancara o fracasso do modelo de privatização
adotado
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Agora, às vésperas da crise anunciada, a realidade
escancara o fracasso do modelo de privatização adotado e o abandono do
planejamento a longo prazo, até então marca registrada do setor elétrico
brasileiro. Os investimentos despencaram da média anual de R$ 13 bilhões,
nos anos 80, para cerca de R$ 7 bilhões na década de 90. E o aumento
do consumo foi de 50%, sendo que a capacidade instalada cresceu apenas
35% nos anos 90.
O desmonte do setor energético também fez triplicar o déficit de
energia em apenas três anos -saltou de 5% para 15,1% e deve chegar a
19,8% nos próximos dois anos. Faltou também investimento na transmissão.
O resultado não poderia ser outro senão o racionamento de energia e
suas graves conseqüências em pleno século 21, situação só vivida na
década de 50, quando quase todo o sistema elétrico brasileiro era
privado, e que só foi solucionada com a estatização do setor.
Os transtornos e os prejuízos que serão causados à população são
incalculáveis. A crise de energia aprofundará a crise econômica e
social com a não-criação de 800 mil novas vagas (FGV), agravando o
crescente desemprego.
Além dos transtornos diários do apagão, os consumidores, já
penalizados depois da privatização com até 90% de aumento nas tarifas
e o fim do subsídio à população de baixa renda, terão que pagar
contas com valores astronômicos, inversamente proporcionais à
qualidade do atendimento e dos serviços.
Não bastasse o repasse da responsabilidade social de um serviço público,
o governo ainda criou organismos políticos que, sem capacidade de
fiscalização e gerenciamento do sistema, acabaram se transformando em
ninhos de acomodação de grupos políticos que dão sustentação ao
governo.
Pior ainda é ver que, mesmo diante da gravidade da situação, o
governo insiste em defender seu modelo de privatização, buscando
esconder os impactos nefastos que esse modelo trouxe à população e ao
sistema energético, comprometendo, inclusive, as possibilidades de
crescimento econômico do país.
É por isso que a CUT e seus sindicatos, empenhados em tirar o Brasil da
escuridão, exigem a suspensão imediata do programa de privatização,
a ampliação dos investimentos na expansão e em fontes alternativas de
energia e planejamento integrado do setor, além de um amplo debate
sobre o modelo energético a ser adotado no Brasil, envolvendo
principalmente a população brasileira. Sem isso, é inevitável que se
apague para sempre nossa possibilidade de desenvolvimento.
João Antônio Felicio, 50, professor,
é presidente nacional da CUT (Central Única dos Trabalhadores).
Antonio Carlos Spis, 50, é presidente regional da CUT-SP.
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