Apagão


As propostas da CUT para a crise energética
 

A crise energética é estrutural e poderá levar nosso país a viver uma situação de desaceleração econômica, aumento do desemprego e da pobreza. Esta crise deve-se ao abandono das funções estratégicas de planejamento do Estado e, ao mesmo tempo, decorrente do modelo de privatizações e da atrofia das funções públicas de regulação, fiscalização e controle das novas operadoras privadas do sistema de geração e distribuição de energia.  

Antes das privatizações no setor elétrico, o governo reduziu sistematicamente os investimentos neste setor, comprometendo prazos mínimos nunca inferiores há cinco anos para a ampliação da oferta de energia. Recursos do BNDES que poderiam ser destinados ao financiamento da expansão do sistema foram utilizados para apoiar a formação de consórcios na compra das estatais do setor.  

Após as privatizações, a ANEEL concedeu aumentos reais de tarifas da ordem de 70% e jamais estabeleceu metas claras de universalização, modicidade tarifária e qualidade dos serviços, ignorando as necessidades de investimento das empresas já privatizadas, das termoelétricas, dos projetos de autogeração e ampliação da capacidade das usinas estatais existentes. Era a tragédia anunciada, e a CUT em inúmeras oportunidades chamou a atenção das autoridades para o problema! 

Esta situação impõe a todos os segmentos da sociedade, a necessidade de propor medidas emergenciais capazes de afastar seus prováveis reflexos negativos para o crescimento econômico e para o mercado de trabalho do país. E não aceitaremos que os trabalhadores sejam penalizados, mais uma vez, por decisões políticas de governo. 

Diante desta anunciada crise de energia, a Central Única dos Trabalhadores propõe: 

1)     Estabilidade no emprego para todos os trabalhadores, enquanto durar o racionamento. Para tanto, reivindicamos que o governo envie ao Congresso Nacional projeto de lei, em caráter de urgência urgentíssima, com o intuito de assegurar a estabilidade;

2)     Redução mínima de 10% da jornada semanal de trabalho, sem redução de salários, para todos os trabalhadores do comércio, indústria, serviços e funcionalismo público;

3)     Proibição de horas extraordinárias de trabalho salvo em situações emergenciais que devem ser apreciadas pelas entidades de classe (patronais e dos trabalhadores);

4)     Suspensão do funcionamento do comércio aos domingos, sem comprometimento do emprego e dos salários;

5)     Revogação imediata das sobretaxas;

6)     Suspensão definitiva das privatizações no setor elétrico;

7)     Congelamento das tarifas de energia durante o racionamento

8)     Revisão das privatizações e concessões das empresas que não cumprirem metas de investimentos

9)     Suspensão imediata do Mercado Atacadista de Energia com o objetivo de impedir que a crise do setor elétrico se transforme em instrumento de especulação financeira, penalizando os consumidores e favorecendo as empresas elétricas;

10) A Eletrobrás deve retomar na plenitude seu papel de investidora, coordenadora do planejamento setorial e financiadora no setor elétrico;

11) Eliminar todas as restrições legais e fiscais que impedem a expansão dos investimentos e a captação do recursos pelas empresas do setor energético ainda estatais que, hoje, podem investir na ampliação da capacidade de geração e transmissão de energia;

12) A ANEEL deve dar transparência à sociedade sobre margens de lucros, remessas de divisas ao exterior e a situação de cumprimento das metas de investimentos das empresas privadas do setor elétrico;

13) Restabelecer o ordenamento e coordenação do setor elétrico, hoje caótico, envolvendo a ANEEL, o ONS, o MAE, a Eletrobrás, as empresas estatais federais e estaduais, as concessionárias privadas, os produtores independentes, o CNPE e o Ministério das Minas e Energias, de modo a reconstruir um sistema integrado de planejamento, compatível com as características do setor elétrico brasileiro e com as demandas de curto, médio e longo prazos de energia para o desenvolvimento nacional;

14) Reservar um papel estratégico à energia "velha", produzida pelas empresas estatais (federais e estaduais), já amortizadas pela sociedade brasileira;

15) Revisão dos programas federais de incentivos e isenções fiscais, orientando-os a financiar programa público emergencial de geração de energia para os estabelecimentos de serviços essenciais (hospitais, escolas, segurança, etc);

16) Revisão da carteira de empréstimos do BNDES:

a)  suspensão definitiva dos programas de apoio às privatizações (energia e saneamento);

b) orientar o crédito de médio e longo prazos aos setores não intensivos em energia e geradores de empregos (agricultura familiar, habitação popular, saneamento, etc).

c) financiar programa de investimentos públicos para a ampliação da capacidade de geração de energia, privilegiando a produção das usinas já existentes, pequenas centrais hidrelétricas, termoelétricas, energia solar, eólica e de co-geração;

17) Estabelecer mecanismos eficazes de participação e controle pela sociedade para discutir medidas efetivas de superação da crise de energia, inclusive sobre políticas de conservação de energia;

18) Promover o incentivo ao desenvolvimento tecnológico na área de energia elétrica, através do fortalecimento do Centro de Pesquisas de Energia Elétrica – CEPEL;

19) Promover uma revisão global dos instrumentos de política industrial, de modo a incentivar a produção de bens e equipamentos destinados a infraestrutura do setor elétrico.

São Paulo, 22 de maio de 2001. 

Executiva Nacional da CUT